sábado, 11 de agosto de 2012
terça-feira, 10 de julho de 2012
O poeta Adail Vivela tece comentários sobre MQNQSP
MENINOS QUE NÃO QUERIAM SER PADRES
Quando lemos um romance com o qual nos identificamos especialmente (como é o caso deste MENINOS QUE NÃO QUERIAM SER PADRES), passamos por um processo mágico de apercebimento de “pontos de contato” com nossa existência. Eu, por exemplo, sou casado com Auxiliadora, viu Antonio Francisco Jesus? (oriunda de Lagarto, pra vc não confundir as musas... rsrsrsrsrs). A mais velha de minhas filhas estudou no Arquidiocesano, como o autor. No meu livro mais recente (POEMAS NO CORETO), também há uma referência a Zé Peixe (no poema Canção de Aracaju). Fui aluno de Monteirinho, que costumava manifestar sua satisfação de ganhar muito bem como professor universitário (ai, ai...). Também trabalhei com Vladimir Carvalho, ele como membro do TRE-SE, eu como Chefe da Seção de Acórdãos e Resoluções.
Também tive diversos encontros com figuras do passado, super-constrangedores para ambas as partes. Lembro de dois: 1- Marcos Coelho, o Dirinho, era um menino danado, vizinho nosso em Barreiras-BA, que um dia desenhou um triângulo com alguns tracinhos na calçada e o nome de uma de minhas irmãs... (rsrsrsrsrs) – encontrei-o muitos anos depois, eu estudante de Direito e ele cobrador de ônibus; 2- Johannes Stephannis, um de meus colegas do ensino fundamental, veio também para Aracaju; quando me encontrou eu já era servidor público federal de nível superior, e ele vendedor de fitas cassete na feira.
Também estudei de favor (no meu caso, bolsa em colégio particular, no ensino fundamental; e depois em escolas públicas, no ensino médio e no superior – sendo no primeiro caso morando com um amigo da família ou em pensionato custeado por outro amigo; e depois em república universitária).
Assim como o autor, lia muito, só que sempre tive pessoas que me emprestavam ou davam livros; e, feito o autor, também estudava muito; creio que, assim como ele, sou um vencedor.
Já li os outros livros de Saracura: MINHA QUERIDA ARACAJU AFLITA e OS TABARÉUS DO SÍTIO SARACURA. Não sou crítico literário, porisso minha opinião é de leigo, no sentido de que ele alcançou um nível artístico mais elevado com OS TABARÉUS. O livro é extremamente dramático e estranhamente atrativo.
Falando do que interessa no momento, que é MENINOS QUE NÃO QUERIAM SER PADRES, o sentimento que ficou para mim é que o livro reflete um conflito aparentemente real na existência do escritor, de aceitação X repúdio; progresso X recalque; resgate X esquecimento. Em outras palavras, há pontos altos e baixos. Para resumir, creio que ele teve a coragem de enfrentar muitos fantasmas e, no geral, saiu-se bem. Não detectei erros de revisão; pensei em sugerir que ele identificasse os rostos nas fotos do final; depois de ler, no apêndice do livro, a identificação dos personagens, alguns reais outros fictícios, acho que fica melhor como está... faz sentido.
Como último “ponto de contato”, assim como o Saracura está melhor ao ter escrito, também me sinto melhor por ter lido. Acredito que é para isto que nascem as obras literárias... deixando gosto de quero mais!
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
O jornalista Luduvice José escreve sobre "Meninos..."e sobe
MENINOS QUE NÃO QUERIAM SER PADRES” UM LIVRO QUE REVOLVE O PASSADO
*Luduvice José
Ainda nem deu tempo de me enxugar do saudosismo após o profundo mergulho que dei no livro “MENINOS QUE NÃO QUERIAM SER PADRES”, do colega de seminário ANTONIO FRANCISCO DE JESUS.. Fui fundo, num périplo que o Saracura me proporcionou, revolvendo e me envolvendo em fatos, alguns sem conseguir esconder a realidade, mesmo travestidos de ficcionismo, mas flagrados por mim como ator de simplória participação nesse enredo sacro- profano.
Foi gratificante recordar. E ainda reverbera nos recônditos das evocações, permitindo-me buscar, levantando as dobras fugidias do tempo, e me encaixar em certas tramas, ligando nomes que o autor adicionou convenientemente complementos, além da providencial troca geográfica de logradouros que circundaram o então vetusto seminário arquidiocesano, aonde vivi durante alguns anos – é até de espantar -, estudando para ser padre.
Quarenta e nove anos me distanciam da história insculpida em cada capítulo. Sobretudo nas entrelinhas que vertem de soslaio, solilóquios de estórias que o tempo já havia entrevado nas minhas lembranças, levadas naturalmente e, que agora, pinceladas em graníticas e cristalizadas colocações, reacendem díspares direções, ensejando até mesmo uma cronologia que me emociona pela fidelização da pena de Antonio Francisco, com parte do que ocorreu e mereceu registro no seu livro. Que diga-se de passagem, dormitou bastante tempo para vir a lume, certamente tomando corpo no ruminar tão próprio dos cautelosos e prudentes. Certamente eivado pela concisão explícita, uma certa disciplina conseguida quem sabe nos soturnos e inexplicáveis – para mim, é claro -, retiros espirituais a que eram submetidos os seminaristas, sem maiores explicações, até mesmo por que todos já estávamos retirados da normalidade dos comuns.
Certamente Antonio Francisco tenha pinçado e coado vertentes, e depurado prioridades, dos calhamaços paridos dos diários gestados na surdina, escondendo urdiduras e agora revelando identidades de um bando de meninos que alimentaram sonhos de chegar a padres, mas que no deambular dos variados caminhos, exigências – muitas absurdas -, isolamentos, colidiram com a realidade que nos acordou, destroçando a inocência onírica, mostrando e desmistificando a premissa reinante, de que chegar ao sacerdócio representasse o caminho ditoso de servir a Deus.
No caleidoscópio da multiplicidade do caráter de cada colega – Antonio Francisco mostra as variadas tendências sem ser psicólogo -, pude enxergar as incongruências, assim como o fosso que separa a teoria, da prática. Principalmente da prática cristã, que não pode ser atrelada a nenhum segmento religioso.
A nostálgica lembrança, a narrativa circunstanciada, permitiram volatizar-me e recordar até mesmo da aragem penteando as folhas do sapotizeiro, e do elegante pé de sapota, provocando-me os sentidos que me trazem o adorável odor de maduros frutos que tanto saboreie. Da mesma forma que imaginei as frondosas mangueiras, que conhecia cada galho, pois mantinha uma estreita cumplicidade, pois me era fácil reconhecer, de longe, o estágio de cada manga, oportunizando-me arriscar um flagra do reitor, e célere chegar até aonde se encontrava o dadivoso e suculento fruto, acrescido do gosto da aventura.
Antonio Francisco de Jesus, tornou seu livro uma ponte, que vencida, mostrou uma clareira infindável que penetrei sem pudor, pela intimidade vislumbrada em cada página, citações ou frases. Um conúbio com o ontem, toldado pelos anos de fastio, revivido e pulsante na trajetória insculpida nas colocações precisas, retalhadas convenientemente, expondo-se nuas como exige o tônus contemporâneo da narrativa.
Atiçado, quase sôfrego, me deixei levar pela leitura, perpassando pelos corredores soturnos que entremeavam os dormitórios, ouvindo ainda o ranger alcaguete dos carcumidos assoalhos, a pontualizar a existência daquele seminário.
Recordei-me até das camas patentes, evocando a minha competência em desarmá-las, deixando-as como se estivessem armadas, deleitando-me quando ouvia algumas desabando sob o peso de um colega desatento.
Vi-me azucrinando o cotidiano dos prefeitos que, por infelicidade passaram pela divisão dos menores aonde me inseria. Consegui que a recordação me permitisse ouvir até o estridente badalar do sino que nos despertava, molestando nossos ouvidos e violentando a nossa vontade de permanecer mais um pouco na cama, pois a missa diária nos esperava.
Ah os apelidos!!! Pródigos em desassossegar os mais sensíveis e irritadiços, e que faziam o deleite dos gozadores, entre os quais me incluía.
E as famosas tardes de domingo obrigatoriamente vividas entre livros!!! Um despautério pois se tornavam abusivamente chatas, uma vez que o Reitor não nos dava trégua, exigindo-nos criatividade e artifícios para trocar os livros didáticos pelos romances, muitos que conseguia camuflar, na sua maioria não tolerados, incluindo os modernistas, na quase totalidade considerados impróprios para um seminarista.
Num todo, para não ser redundante, admito com contentamento, que o livro OS MENINOS QUE NÃO QUERIAM SER PADRES, me levou a um passeio prazeroso pelo tempo. Desde o instante em que o autor descendo da marinete na Rua da Frente - Avenida Ivo do Prado -, se deparou com aquele açude descomunal (o Rio Sergipe), deixando para trás os pés de grota que bolinava com a enxada para a produção de mandioca, e chegando para uma nova jornada que lhe proporcionou escaladas, descortinando o saber que tanto perseguia, mas que sua querida Itabaiana nunca lhe concederia, tornando-se assim mais um entre os meninos que não queriam ser Padres.
Obrigado, colega, pela viagem. E olha que o roteiro pode ser ampliado numa segunda edição ou no tomo II. E que possa vir logo, pois já estou me preparando para novos mergulhos.
* Jornalista e crítico de arte
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
O Sr. José Florindo de Lençois Paulistas fala do livro de Saracura
| joseflorindo |
| 12:53 (1 hora atrás) |
Responder
Em 9 de novembro de 2011 12:53, joseflorindo <joseflorindo@uol.com.br> escreveu:
Saracura
parabenizá-lo pela escrita ágil e envolvente, só lamentei a ausência
Prezado Antonio Francisco de Jesus.
Encontrei o seu belíssimo trabalho literário no grande acervo da
Biblioteca Municipal Orígenes Lessa de Lençóis Paulista e querodo seu autógrafo no exemplar.
É melhor o mundo ganhar um bom cristão do que um padre ruim.
Obs:- Eu deposito todas as minhas dúvidas num bom cristão e num padre ruim,
por sinal o padre Artur me causou estranheza....
Muito obrigado pelos bons momentos que o seu romance me proporcionou.
josé florindo coneglian
|
Caro José Florindo,
Que mãos abençoados doaram "Meninos que não queriam ser padres" à biblioteca de Lençóis Paulistas? Quase no outro lado do mundo (leia-se Brasil). Deus as abençoe! Senti uma alegria imensa por seu email dizendo que gostou do meu trabalho. É um grande incentivo para um autor que nunca imaginou sequer benzer as fronteiras de Sergipe. Deus o abençoe tb. Seu email vai direto para o www. meninosquenaoqueriamserpadres. blogspot.com
Obrigado por ter vindo de tão longe ao meu coração grato.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
E AI??? - "Meninos que não queriam ser padres"
(21/09/2011) |
Antonio Saracura, bom dia.Desde que li a primeira referência sobre seu livro, senti um tremendo desejo de lê-lo. Assim que pude, comprei-o na Livraria Escariz do Shopping Jardins. E aí? Você vai saber a resposta no artigo que lhe envio anexo e que penso em publicar na Perfil. Por outro lado, como você fala em dias de tristeza, marasmo e indiferença, mando-lhe uma poesia sobre calundu, o qual me acompanhou por muito tempo. E, apesar de você declarar que não consegue mais ler poesia, envio-lhe um soneto sobre a maior criação divina, a qual foi a razão do nosso afastamento do seminário. Como só irei "ver avião" (ir a Aracaju) no próxmo mês, gostaria de saber como adquirir "Os Tabaréus do Sítio Saracura", pois estou certo de que passarei outros momentos muito agradáveis. Receba um abraço do Víman.
E AÍ ?!!!
Foi o que me perguntei, ao levantar pela primeira vez para satisfazer uma necessidade fisiológica, depois de ler 190 páginas. E aí?!!! Não tenho nada mais importante para fazer? E os livros de autores famosos que me propus ler?!!! E o treinamento no computador, que teima em não querer falar minha linguagem?!!! A leitura da Bíblia e os cuidados com minha pequena horta doméstica?!!! Por que será que não consigo largar este livro?!!! Mais pareço um inseto em teia de aranha?!!!
Não podia mesmo largá-lo, porque me fazia reviver. Senti-me aos 14 anos, recordando momentos inesquecíveis, vividos no antigo Seminário de Aracaju. Saracura, autor de “Meninos que não queriam ser Padres” ainda encontrou lá muita gente com quem eu convivera. São fotos vivas sua descrição do “Reitor Leão”, Pe. Pedro e Professor Alfeu com seu diapazão (“ele é muito engraçado, especialmente quando quer parecer sério”). Recordou-me pessoas caras, como Padre Artur e fatos como o jogo de espiribol, as memoráveis partidas de futebol contra o Salesiano, jogadas de batina, no que levávamos tremenda vantagem, - e nossa disputa contra os morcegos por causa dos sapotis, - como também as mangueiras de frutos deliciosos. Ele me fez voltar aos momentos difíceis, mas inesquecíveis da adolescência, na qual o calundu – uma espécie de depressão incipiente, costuma tomar conta do jovem pela incerteza do futuro. Relembrou-me expressões tão nossas, como invocar, ficar picado, receber portaria, jeito delicado e pinima. Desde o início, vi-me no autor: ele Tonho, eu Toinho, ambos do interior, viajando de “marinete”, bestificados na chegada a Aracaju ao ver os velhos casarões da Rua da Frente, a “imensidão” do rio Sergipe, os “carros de praça” e carregando a inconfundível malinha de couro curtido, na cabeça. Também sou do tempo do candeeiro a querosene, fiz exercícios escolares com “toco” de lápis e em papel pardo (de embrulho), morei em quartinho de vila e ia a pé para o Atheneu; tive minha Ana Isabel, na pessoa de uma fã do povoado Jabiberi, que se ofereceu até para beijar meu pé ferido (conseqüência da última partida de futebol no seminário); tremi na base, quando me senti atraído para a primeira abordagem amorosa, “sinto-me em paz”, quando sento ao birô, e continuo gostando de música, mas incapaz de aprender tocar um instrumento. Apesar das semelhanças tivemos algumas diferenças. Não sei quem era mais inocente, se eu ou o meu tempo. As irmãs dos colegas em visita e as meninas nas procissões não interferiram na minha decisão de abandonar o seminário. Apenas, “as filhas das famílias nas missas da capela”, onde eu entrava de cabeça baixa para rezar o terço, mas o perfume que envolvia o ambiente agredia suavemente minhas papilas olfativas, inundando a área das emoções, fazendo-me imaginar cada qual tão linda quanto perfumosa e levando-me ao êxtase do pecado, por pensamento. Nem mesmo o alto muro das lágrimas maternas impediu-me do descumprimento da promessa de celebrar uma missa para d. Nora de “seu” Zé Pequeno. Teria sido um bom padre, por certo, se pudesse associar o matrimônio ao sacerdócio. Também tive mais sorte que ele, pois meu diretor espiritual fora o educado e inteligente Pe. Luciano Duarte e meu reitor o compreensivo Pe. Espiridião Góis, que em carta, datada de 22 de fevereiro de 1952, para conforto de minha mãe, assegurava que “...do seminário saiu mais um ótimo cristão e um perfeito cidadão...” Por tão gratas recordações, aquela atração irresistível de continuar lendo, só me restando uma coisa a dizer ao final de tão reconfortante leitura: obrigado MESMO, Saracura!
VÍRMAN
Tobias Barreto/SE, 16.09.2011
terça-feira, 21 de junho de 2011
"Só sei escrever sobre coisas que conheço" (sobre o que vi e vivi e as adjacências)
Matéria publicada no Jornal Cinform
de Aracaju, edição 13 a 19/06/2011
Antônio Francisco de Jesus, escritor
TÍTULO:
"Só sei escrever sobre coisas que conheço"
(sobre o que vi e vivi e as adjacências - permita-me agregar ao título este complemento)
SUBTÍTULO:
Autor sergipano fala do entusiasmo de perpetuar as coisas do interior
Por Igor Matheus
"Havia imagens que me perseguiam a vida inteira. Eram lembranças em que eu tentava escapar do chicote, dos corriões do meu avô, de levar surras no sítio, das mandiocas entrançadas que tínhamos que limpar agachados. Se eu não escrevesse sobre isso algum dia, endoidava". O itabaianense Antônio Francisco de Jesus - ou Antônio Saracura, como também gosta de se denominar - não endoidou. Apenas se entregou àquilo para o qual pareceu ser predestinado a vida inteira: a perpetuação, pelas letras, de sua gente e de sua terra.
É o que está registrado em seu segundo trabalho como autor, 'Meninos que não queriam ser padres', lançado no começo deste mês. Segunda incursão de Antônio Francisco na literatura, a obra trata da saga de crianças e jovens absorvidos pelas exigências de um seminário, uma das pouquíssimas opções de se obter educação formal em uma época em que saber ler já era muito.
Autodeclarado preguiçoso para trabalhar na roça - pelo menos quando moleque - , onde se criou, Antônio Francisco trilhou diversos caminhos até se enxergar escritor. Formou-se em Economia em 1971, foi repórter e redator-chefe de antigos jornais da capital, fundou o Clube de Cinema de Sergipe e trabalhou em 'n' empresas pelo país. Depois de aposentado, se viu diante de uma pilha de lembranças que anotou pelo caminho. E tratou de compartilhá-las por meio do mais complexo, elaborado e pouco difundido estilo de redação que existe: o mais simples possível. Em entrevista para o Cinform, Antônio Saracura fala de sua obra, das intersecções dela com sua biografia e da atual literatura sergipana. Acompanhe.
Cinform - Que tipo de público o senhor pretende alcançar com 'Meninos que não queriam ser padres'?
Antônio Francisco de Jesus - Todos. Tanto ele quanto o meu primeiro livro, 'Os Tabaréus do Sítio Saracura', foram escritos em linguagem simples de propósito. Procurei usar o mínimo possível de palavras fora de circulação. E acho que é desse jeito que o livro vai cair no gosto das pessoas. São obras para quem gosta de costumes, para quem dá valor às coisas de Sergipe. Só que, ao mesmo tempo, não é uma obra bairrista. As histórias que conto nos dois livros poderiam ter acontecido em qualquer povoado do Brasil ou em qualquer seminário do mundo. Não abuso de linguagem regional. Minha linguagem é maneira. Em alguns casos, é inevitável usar termos da região. Mas fiz o possível para que uma pessoa de qualquer cultura lesse a história sem se sentir deslocada.
Cinform - O que está embutido na frase do título?
AFJ - Ali me refiro aos caprichos, às armadilhas, que fizeram com que diversos meninos fossem obrigados a prestar exame de admissão no seminário. Antigamente, o interior era cheio de gente querendo aprender a estudar, a ler, mas que não tinha condições de bancar o ensino. No livro, um dos moleques não passa no exame, mas acaba ficando no seminário como porteiro sob a condição de estudar para conseguir entrar no ginásio. Daqueles moleques todos, alguns queriam ser padres e estavam até imbuídos de vocação. Mas a maioria não tinha a menor ideia do que estava fazendo ali.
Cinform - O senhor passou por tudo isso?
AFJ - Sim. Passei seis anos no seminário menor. Fui porteiro, depois terminei o ginásio, fiz um ano de científico e em seguida saí. Na verdade esses meus dois livros, apesar de serem basicamente ficção, têm um pouco da minha vida. Cada frase registrada ali veio de alguma coisa que, de alguma forma, ouvi. Só sei escrever sobre as coisas que conheço. E no livro mostro parte dessa vida lá dentro, dos rigores da disciplina, dos métodos de lavagem cerebral. Mas tudo isso sem menosprezar e ridicularizar nada. Por sinal, acho que o seminário é uma instituição que merece respeito. Muitas pessoas ilustres de nossa sociedade vieram de lá. Também ofereço o livro aos 'meninos matutos que conseguiram estudar'. Porque eles também revolucionaram suas próprias famílias, fazendo com que irmãos e primos também quisessem se educar.
Cinform - E como começou esse interesse de retratar histórias de sua realidade?
AFJ - Foi mais ou menos em 2000, quando me aposentei. Minha mãe sempre teve uma memória fabulosa. E quando ela contava histórias de nossa família, eu anotava, fazia árvore genealógica, fazia tudo. Fui guardando e passei a me perguntar o que iria fazer com tudo aquilo. E decidi escrever para os outros. Primeiro fiz em formato de cordel. Nada pra vender por aí, mas apenas para distribuir entre os parentes. Só que aí começaram a dar palpites, a incentivar. Transformei em prosa, depurei, joguei fora uns pedaços, rasguei outros, terminei e comecei a ver que aquilo dava uma boa leitura. Pelo menos boa o suficiente para não envergonhar nem a mim mesmo nem à cultura sergipana. Até porque não escrevo pra obter louvores de ninguém. Apenas gosto de escrever com carinho e cuidado.
Cinform - Que autores o senhor tem como guia para exercer esse cuidado?
AFJ - Vários, uma miscelânea de escritores. José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Guimarães Rosa. Daqui, Luiz Antônio Barreto, Vladimir Souza Carvalho, Chico Dantas. E muitos autores estrangeiros também. Li todos eles sem nenhuma obrigação, sem nenhuma incumbência relacionada. Não sou professor da área de Letras nem nada. Os li por prazer.
Cinform - Como o senhor avalia a relação entre a literatura que se produz em Sergipe e a disseminação dos valores e costumes locais? Esse elo ainda é forte?
AFJ - Não. E espero que meus livros despertem outros autores para esse lado. Há escritores aqui que publicaram livros há 20 anos e mesmo em plena forma intelectual não lançaram mais nenhum. Pararam no tempo dizendo que não há mais incentivo. Eu também não tive incentivo. Mas fui atrás. Negociei, pechinchei, recebi muitas negativas e consegui, mesmo tudo tendo saído do meu bolso. E posso dizer que minha dificuldade não foi nem escrever nem editar. Meu maior problema, até hoje, é distribuir. É fazer com que as pessoas tenham acesso à minha obra. 'Os Tabaréus do Sítio Saracura', por exemplo, ninguém sabia onde estava, pois era socado no subterrâneo das livrarias. E mesmo com toda a divulgação em rádios e jornais, muita gente ignora os lançamentos. Além disso, há outro problema: não há em Sergipe nenhuma editora que nos dissemine nacionalmente. O máximo que podemos fazer, hoje, é chegar à ponte do Rio Real. A não ser que alguém coloque o livro embaixo do braço e leve embora. Essas coisas podem até desestimular muitos escritores. Mas a mim, não.
Cinform - Apesar de ser ficção, sua obra também funciona como um exercício de resgate da memória interiorana. O senhor acha que Sergipe tem zelado por seu passado a contento?
AFJ - Graças às universidades, até que sim. Temos historiadores despontando em tudo quanto é interior. Em Itabaiana mesmo há quatro ou cinco estudiosos de escol escrevendo sobre a história do município. Não publicaram livros ainda, mas exibem seus trabalhos em artigos nos jornais locais. E não é só lá. Tem surgido livros sobre municípios Sergipe afora. Já estão surgindo várias coisas, e acho que também colaborei um pouco com isso.
Cinform - Depois de 'Meninos que não queriam ser padres', qual o seu próximo passo no ramo da literatura?
AFJ - Venci o prêmio Mario Cabral pela Secretaria de Estado da Cultura com um livro de crônicas chamado 'Minha Querida Aracaju Aflita'. Eles prometeram que a publicação sairia no ano passado, mas até agora não aconteceu nada. Então... estou no aguardo. O interessante é que quando você deve ao governo, ou você paga ou vai preso. Mas quando ele deve a você, não existe jeito de cobrar (risos).
domingo, 12 de junho de 2011
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